O Cheiro Do Ralo - Resenha de Cinema

Lourenço não guarda nomes de pobre. Nem poderia. No livro em que se baseia o filme “O Cheiro do Ralo” o próprio protagonista é deixado anônimo – um perfil sem um rosto. Mas, se ganha um nome na sua versão cinematográfica, Lourenço continua um personagem em busca de uma identidade.
O discurso do filme despista o público. As frases importantes e charmosas parecem sair da boca de um esquizofrênico num discurso incoerente e, por muitas vezes, contraditório. O protagonista é aparentemente um amontoado de rabiscos desarmônicos e abstratos que não formam uma imagem normal.
No início somos apresentados a um sujeito inseguro, retraído. Dono de uma estranha loja de usados posto numa situação na qual é obrigado a explorar e expor seus fregueses para conseguir seu ganha-pão. Com o desenvolver da trama essa insegurança dá lugar ao ódio a sua própria condição. Lourenço não é um personagem que se explica, – estranho, dada a natureza personalista do filme – pelo contrário, se esconde. Em um dos poucos momentos reveladores, quando se confessa para a empregada, descobrimos o fardo psicológico que é levar essa existência suja, mesquinha, para onde foi tragado pelo fluxo caótico da vida.
Por isso, cada vez mais, Lourenço desenvolve aversão a clientes com histórias bonitas sobre seus objetos. Quer banhar na lama, expor a imundice pornográfica todos que ali vem - exibir o lado inescrupuloso de cada um. Enquanto isso, foge de sua própria essência, lutando para deixar claro que aquele cheiro de merda – materialização plena e total de sua condição – não é dele. É do ralo.
Num continuo de outras tantas fugas como a de um relacionamento vazio com sua noiva. Lourenço transforma-se em um homem obcecado por criar uma identidade que preste. Busca, não uma mulher real, com defeitos e qualidades, mas uma bunda perfeita. Compra, totalmente contra seus princípios de lucro, um olho que inventa ser de seu pai. Quer ter uma história para contar. “O Cheiro do Ralo” é, comicamente, sobre a luta de um personagem em se tornar decente ao espectador.

1 Comments:
At 9:38 AM,
Pizza said…
Vou procurar saber mais. Muito tempo que não assisto um filme cult desses.
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